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November 3, 2010 / vitorcaldi

Uma democracia sem demos.

Afinal, qual é a percepção de democracia que nós temos? Se buscarmos na origem do termo, vemos que o sonhado sonho da democracia significa um governo de todos e para todos. O governo do povo. Do grego, é o que o termo literalmente significa (Demos+Kratos).
Ao final das eleições de 2010, me ficou uma dúvida na cabeça: qual é a democracia que nós realmente queremos e defendemos?
Durante a gestão do governo Lula, a nossa imprensa tentou aproximá-lo de outros governadores que já haviam sido demonizados no imaginário popular: Fidel Castro, Hugo Chavez, Evo Morales, etc. Todos os presidentes de tendências socialistas, eleitos na América Latina na década de 2000-2010, foram apontados pela mídia como ameaças à democracia.
Pegaremos o caso da Bolívia, por exemplo, onde antes de Evo Morales, a participação das populações indígenas nas questões públicas eram praticamente nulas. Com o presidente vindo do povo indígena, a participação dessas populações passou a ser muito mais efetiva. A inclusão de um grupo social na participação dos processos públicos, não é um benefício para a democracia?
Na Venezuela, onde quem lidera é praticamente o satanás em pessoa, parece que esquecemos que o Chavez, ao ser eleito democraticamente, sofreu uma tentativa de golpe em 2002. No caso da Venezuela, a disputa de poder e o ego de Chavez fizeram que ele tomasse medidas que, sem dúvida, ferem o processo democrático. Mas o que era feito antes deles, era uma democracia de fato?
No Brasil, FHC conseguiu aprovar, com muita armação e compra de votos, a lei que permitia a reeleição. Foi reeleito em 1998. Ótimo, realmente a reeleição é algo bom para o país. 4 anos é pouco para uma gestão. No entanto, vocês conseguem imaginar o estardalhaço se isso fosse feito no governo Lula? Lula nunca cogitou uma mudança constitucional para se re-reeleger e, mesmo assim, a imprensa criou o clima e o nos ameaçava com o fantasma do ditador Lula, que ficaria para sempre no poder.
Nos 8 anos do governo Lula, milhões de pessoas saíram da miséria. Outros milhões de pessoas saíram da pobreza e passaram a integrar a classe média. Óbviamente, pessoas com maior pode aquisitivo têm mais condições de participar na vida política. De consumir informação. De ter acesso à informação. Enquanto a nossa imprensa partidária se dizia sob censura, a verdade é que a democracia no Brasil se consolidava. Os ideais democráticos, tão aclamados pela mídia e tão defendidos pela nossa elite estão acontecendo diante dos nossos olhos.
É imprescindível numa democracia que tenhamos uma imprensa livre e investigativa. O que temos no Brasil é um conglomerado de empresas que dominam a imprensa e a opinião pública e, por interesse próprio, se diz sob censura.
Parece que a nossa elite, tão estudada e intelectual, está traduzindo ao pé da letra o termo democracia. Na grécia antiga, onde o povo (demos) era somente representado por homens adultos e livres, as decisões do processo democrático cabiam somente a “elite”. Hoje, o mundo mudou, e o povo não deve ser representado somente por uma meia dúzia.
Logo após o anúncio da vitória de Dilma Roussef, fomos tomados por uma onda de ódio e preconceito, acusando os “nordestinos”, “pobres” e “ignorantes” de terem votado na candidata. A elite, dona da mídia, consegue conduzir o ódio na classe média, que almeja a elite (nunca serão!) e defendem seus interesses, mesmo sem saber. Se eu não tivesse certeza de que há um abismo entre “mimimi” na internet e ação de verdade, eu temeria o surgimento de um movimento separatista. Ou até mesmo do fortalecimento de um movimento ultra-consevador, com uma pintura fascista. Campo para trabalhar isso há. Principalmente no Sul/Sudeste.
No fim das contas, é isso que a elite quer. Uma democracia sem demos.

PS: Emprestei a expressão “democracia sem demos” de Mino Carta.

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15 Comments

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  1. Bruna / Nov 3 2010 10:21 am

    Movimentos separatistas sao engracados, o povo do RS ate hj fica alardando pra uma possivel separacao, e a unica coisa que consigo pensar é que Eles (do RS e SP) nao tem nocao de quanto a economia deles e dependente dos outros estados.
    Como vc ja sabe nao apoio a dilma, mas fica aqui tb minha indignacao por conta de t oda a revolta que se formou em torno da eleicao dela. Essas pessoas deveriam guardar suas energias pra fiscalizar o governo.

    • vitorcaldi / Nov 3 2010 10:30 am

      “Essas pessoas deveriam guardar suas energias pra fiscalizar o governo.” – Totalmente de acordo.
      Despertar esse ódio incondicional à Dilma é o mesmo que se, a partir de agora, os que elegeram a Dilma (como eu) batassem palmas para tudo que ela venha a fazer. Se estiver certo, apoiaremos. Se estiver errado, temos que brigr para mudar. Independente de quem esteja lá.

    • Dilvar / Nov 4 2010 2:03 pm

      Oi Bruna,
      os movimentos separatistas são uma locomotiva interessante do desenvolvimento… seja pelo medo de que a separação realmente ocorra, seja para se dar conta de como é importante estar unido. Mas para ser um pouco mais técnico, hoje temos um modelo de globalização onde as dependencias entre estados ou entre países são equivalentes e a separação não seria um grande problema, a não ser pelos egos exaltados de uns e outros, que sempre criam entraves para o desenvolvimento… vide nosso Mercosul, que jamais avançará como um mercado comum devido aos devaneios dos governantes que têm…

      • vitorcaldi / Nov 4 2010 6:42 pm

        Aqui eu discordo totalmente! Os movimentos separatistas nunca são uma alternativa para crescimento. São somente um resultado do ódio e do preconceito. Temos vários exemplos históricos e nenhum é favorável…é só ver o que virou a URSS após o seu fim, as lutas territoriais…ou seja, muitas e muitas mortes por nada. E aí ainda estamos falando de regiões onde existem “diferenças étnicas”. No Brasil, onde ninguém é branco e ninguém é negro, um movimento separatista não tem nem sentido!
        Quanto ao Mercosul, discordo mais uma vez. Vejo o fortalecimento do bloco nos últimos anos e, enquanto pensarmos em separatismo no Brasil, como vamos pensar em união latino-americana?

      • Bruna / Nov 4 2010 11:18 pm

        Nao seria um problema? como assim? ate onde consigo ver e entender pelo que leio os estados ainda dependem SIM uns dos outros, e muito facil iniciar um embargo aos “fujoes”, e assim deixa-los em condicoes miseraveis.
        Parece simples faze-lo mas quero ver na pratica um “estado” sozinhoo negociando internacionalmente. Acredito que o embargo acabaria nao sendo somente o “nacional” como o mundial. Nossos outros estados tem condicoes suficientes de produzir com a mesma qualidade tudo o que o RS e SP tem.
        Mas concordo no fim das contas que se rolasse um separatismo os estados sim se dariam conta de quao dependentes sao um dos outros.

  2. Zoio / Nov 3 2010 10:49 am

    Sempre temos aqueles que reclamam por tudo, outro dia uma amiga falou: “odeio o Brasil, esse negocio de ser obrigado a votar e ridículo”, e ainda continuou: “agora temos uma mulher inventada na presidência, o que eu faço da vida agora?”
    Realmente não entendo certas ações/condutas, de algumas pessoas, nossa democracia, funciona, a prova disso foi a vitoria da Dilma, o povo, assim o fez, não teve fraude, não teve campanha contraria que mudasse a opinião publica(desejo do povo?), da continuidade da era Lula. Talvez essa minha amiga seria mais feliz se o povo pobre continuasse mais pobre, e o IPI/IPVA do carro na região sudeste tivesse redução, ou, um novo projeto do presidente para derrubar essas taxas, ou seja, nosso presidente somente olhasse para a região mais rica and forget about the others.

  3. Ana Paula Guimarães / Nov 3 2010 10:11 pm

    Querido Vítaro!!!

    Apesar de não concordar com você quanto no que diz respeito à democracia na gestão Lula, gosto muito de ler seus textos e da forma com que você coloca seus argumentos. Discordo de boa parte, but this is nothing but democracy =)
    Continue escrevendo, chico! Ah! E por favor: continue acessando meu humilde bloguinho!!!

  4. Ana Paula Guimarães / Nov 3 2010 10:16 pm

    …poxa! Escrevi um monte de coisa e, quando apertei a opção “postar”, tudo desapareceu!
    … mais uma amostra da minha incompatibilidade p/ com a tecnologia, hahaaha

    Gostei do texto, apesar de discordar de boa parte, mas…. this is nothing but democracy =)

    Beijos e continue escrevendo e sendo o único leitor do meu bloguinho!!!!

    • vitorcaldi / Nov 3 2010 10:20 pm

      bah, mas agora eu vou ficar curioso de saber o que vc escreveu! Vc e a tecnologia, viu…tsc tsc.

  5. Dani Viegas / Nov 3 2010 10:41 pm

    Zoio, o que a maioria das pessoas querem é exatamente o q vc disse: que os pobres continuem pobres e sem chance alguma de ‘subir na vida’ e que os ricos continuem sendo o que sempre foram. Pessoas que nunca tiveram acesso a educação e que hoje conseguem uma graduação, por exemplo, assusta. Mas quem tem q continuar tudo isso é quem está sendo beneficiado. O ideal seria que os mais ‘educados’ tivessem a consciência de votar em quem realmente sente o governo atuando na vida deles, mas isso não acontece, o q é uma pena.
    Cabe a todos continuar apoiando o que deu certo e esperar que seja feito o q ainda falta e, principalmente, cobrar o que foi prometido. De resto, deixa o mimimi rolando e eu, particularmente, to reportando como spam toda xenofoia q eu vejo no twitter, pq é o q está ao meu alcance.

    beijo a todos os envolvidos

  6. Nadia / Nov 3 2010 11:12 pm

    E existe democracia? Qual é o nosso papel na política? Podemos eleger (ponto) No máximo, podemos destituir um político de seu cargo se ele fizer a loucura de congelar nossas poupanças e cair nas (des)graças da Globo. Que democracia é essa que acontece em outra esfera? Na esfera dos grandes grupos financeiros, FMI, Bancos – são os interesses destes grupos que se sobrepõem aos interesses de nações inteiras…

    • vitorcaldi / Nov 4 2010 6:48 am

      Concordo, Nadia!
      Mas no que diz respeito à democracia representativa, mesmo essa tende a ser podada. A participação de todos é essencial, mesmo que seja só para eleger.

  7. Dilvar / Nov 4 2010 1:58 pm

    Ótimo texto Vitor… invista mais na carreira mas sem as “aventuranças” políticas. Mas complementando um pouco os dados: todos estes governos que citas representam sim um regime democratico, desde o Chavez até a Dilma; não podes esquecer que o “povo” é um pouco mais do que os pobres… a midia censurada é povo; os ricos – é povo; os jornalistas é povo… desta forma, creio que o mais importante é que os governos tenham o papel de evitar as diferenças e não permitir que algum grupo seja dominante, seja ele o grupo dos ricos, seja ele o grupo dos pobres, o grupo dos negros, etc. o governo deve zelar para que as leis sejam respeitadas e temos várias leis no Brasil que buscam preservar a igualdade das pessoas, negros, brancos, homens, mulheres, etc. Abras!

    • vitorcaldi / Nov 4 2010 6:38 pm

      Concordo totalmente, Dilvar. E foi isso mesmo que eu disse. A democracia deveria funcionar para brancos, negros, índios, pobres, ricos, gays, heteros, judeus, cristãos, etc, etc, etc.
      Acontece que na prática, os grupos que dominam são sempre os que tem dinheiro. E, o principal ponto que quis expor, é que até bem pouco tempo atrás estávamos em uma situação onde grande parte da população vivia (e uma grande parte ainda vive, mas isso vem mudando) na linha da miséria. Essas pessoas estavam realmente excluídas do processo democrático.

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